segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Cartas e correspondências

Alguém lembra quando mandou sua última carta?
Aquelas, pelos meios convencionais: ir ao correio, comprar selo,
escrever numa folha de papel, com as próprias mãos.
Eu não lembro mais.

Nunca mais mandei cartões, cartas, no máximo, quando eu vou enviar algum pacote,
coloco um bilhetinho junto para esclarecer alguma dúvida.

Bom, ontem, eu resolvi escrever uma carta.
Só não sei se vou conseguir atender as minhas próprias expectativas.
Mas vou escrever uma carta para o Léo.
Entre nós dois, parece que qualquer comunicação nunca é suficiente.
Não há contato por telefone, sms, skype que pareça transmitir tudo
o que queremos contar um para o outro.
Sempre fica algum assunto pendente, uma pergunta por fazer, uma história pra contar.
Ele e o Vini, são hoje as pessoas com quem eu mais converso.
Mesmo com toda a distância entre nós.
Mesmo que conversar signifique teclar.
Já me peguei fazendo alguma coisa, ou ouvindo, e pensando ...
"bah, preciso contar isso para o Léo".
É a relação mais maluca que eu já tive.
Seria o amor da minha vida, se não tivéssemos vários 'senões' entre nós.
Eu, e todos os meus dramas, traumas e desconfianças, a distância,
e ele com toda a confusão que parece brotar como mato na vida dele.
Mas eu acho que ele sempre será o amor da minha vida.
Meio irmão, meio parceiro, meio paixão, meio vínculo que eu não consigo explicar.
Meio herói num pedestal por ter sido o primeiro homem com quem convivi relaxadamente.
Não faço a menor idéia de que tipo de relacionamento nós dois desenvolvemos,
mas - aparentemente - não se inclui em nenhuma categoria que eu conheça.
Acho que pra ele a nossa relação é mais clara,
eu sou uma irmã que a vida trouxe pra ele.
Eu não vejo isso com tanta nitidez, mas ...
ao mesmo tempo, não sei se algum dia seria permitido uma relação diferente.
Nem sei se é necessário termos uma relação com rótulo.
Talvez sejamos dessas pessoas abençoadas que vivem algo completamente diferente e são felizes assim.
Conversamos sobre tantas coisas: mulheres, homens, inseguranças,
trabalhos, sonhos, loucuras, amigos, decepções, vitórias, etc, etc, nunca termina.
É claro que eu converso com vários amigos, e sobre vários destes mesmos assuntos, mas ... sei lá, com ele essas conversas sempre foram leves e divertidas.
De certa forma, eu tenho a sensação que a melhor Lenira
existe quando está conversando com o Léo.
E não existe nenhum esforço nisso.
Não estou encenando.
Estou sendo eu mesma, me divertindo, brincando, sendo feliz.
E quando ele não está bem, eu sinto muita dor.
Principalmente, por que eu nunca posso fazer nada.
São lutas que só pertencem a ele, e eu só posso estar presente.
E isso é outra loucura: como se pode estar presente
na vida de alguém que mora há 1200 kilômetros de onde tu estás?
Mas eu sempre me esforço em estar presente.
E, frequentemente, sinto a presença dele.
Sei que ele consegue no meio da perturbação lembrar de mim.
Como eu posso ter tanta certeza?
De onde vem essa convicção?

Eu não oro mais.
Quando eu rompi meus laços com a IJCSUD, eu rompi com este exercício.
Pelo menos, da forma convencional, olhos fechados, mãos postas, ajoelhada,
implorando condescendência de um ser vingativo e irado.
Eu converso com o divino e expresso minhas emoções.
Ando pela casa, fazendo as minhas coisas e começo a conversar.
E na verdade, eu sou muito mais irada do que qualquer divindade poderia ser.
Converso com o divino sobre vários amigos.
E converso com o divino sobre o Léo, e minhas preocupações com ele.
Sempre peço que a existência tenha generosidade com meu amigo Léo.
Mas admito que, já pedi também, para que a existência rompesse nossa conexão.
Não é nada contra, não.
Mas também não sou a favor.
É algo tão desconhecido que já me passou pela cabeça que talvez não seja saudável.

Ele é o irmão que eu sempre quis ter.
O amigo em quem eu confio.
O homem que eu acho atraente.
O ser humano com quem eu me importo.
E ele consegue me fazer crer que eu sou uma pessoa melhor do que sempre acreditei.
Já chorei muito por causa das vezes em que ele me fez sentir isso.
Somente quem ouviu várias críticas sobre sua capacidade de amar,
faz noção do que é ler, ouvir, alguém que se considera tanto,
dizendo que tu és generosa, amorosa!
Quando essa pessoa diz, que - de alguma forma que eu não consigo ver -
eu contribuí pra ele estar melhor hoje.
Mesmo escrever sobre isso, me dá lágrimas nos olhos.
Mas eu já melhorei.
Não fico tão sombria e fechada, logo depois de receber este tipo de elogio.
Eu já consigo crer.
E se não fosse o Léo, talvez eu nunca começasse a exercitar esta crença em mim.
O absurdo da questão, é que eu sei que pra ele a reação deve ser semelhante.
Ele também já levou tanta rasteira, tanta dor, tanta decepção.
Não deve ser simples quando eu digo que o amo.
E estou sendo verdadeira.
Não estou encenando.
Não consigo dizer isso com frequencia.
Mesmo após vários "eu te amo" namastêmicos,
eu ainda sou cheia de cuidados para usar uma frase tão intensa.

Será que é possível que alguém compreenda o que eu sinto?
A minha amizade com o Léo, abriu espaço
para que a minha relação com o Vinícius
seja muito semelhante.
Ainda não tão tresloucada, mas em vias de.
Claro que ele ainda é top de linha (risos)

Eu ainda vou escrever a carta pra ele.
Não sei se vou falar destas coisas, mas é uma das intenções.
Mas quero contar pra ele como eu me sinto, as coisas que eu vejo aqui,
das coisas que eu quero construir e ainda não consegui, etc., etc, etc.
Hoje mesmo vou na papelaria comprar um bloco de papel de seda.
O papel que eu usava quando escrevia para o Fernando, há décadas atrás
(e isso é exatamente a verdade, sem exageros escorpianos).

Em 2010, espero que continuemos tão próximos quanto os últimos meses.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Estes dois textos abaixo, estavam no meu perfil do orkut, mas ... estou a fim de mudar, e ao mesmo tempo não quero me desfazer destes dois textos que eu acho que tem tanto de semelhança comigo.
Agora fazem parte dos meus trecos e cacarecos.


"Sou o intervalo entre o que desejo ser
e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ..."

Álvaro de Campos



Não cobiço nem disputo os teus olhos
não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos
nem sei tampouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos
Nada do que possas ver me levará a ver e pensar contigo
se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo
Não me digas como se caminha e por onde é o caminho
Deixa-me simplesmente acompanhar-te quando eu quiser
Se o caminho dos teus passos estiver iluminado
Pela mais cintilante das estrelas que espreitam as noites e o dias
Mesmo que tu me percas e eu te perca
Algures na caminhada certamente nos reencontraremos
Não me expliques como deverei ser
Quando um dia as circunstâncias quiserem que eu me encontre
No espaço e no tempo de condições que tu entendes e dominas
Semeia-te como és e oferece-te simplesmente à colheita de todas as horas
Não me prendas as mãos
Não faças delas instrumento dócil de inspiração que ainda não vivo
Deixa-me arriscar o molde talvez incerto
Deixa-me arriscar o barro talvez impróprio
Na oficina onde ganham forma e paixão todos os sonhos que antecipam o futuro
E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei
Nem queiras que eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar
Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer e dos teus gestos
Ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida.
Ademar Ferreira dos Santos

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O amor, a amizade e a gravidade segundo Paul McCartney

Hoje, me deu vontade de, realmente, conhecer os Beatles.
Tudo por causa de um texto que o crítico Regis Tadeu postou no yahoo.
Claro, que não foi ele que escreveu, acho que aí está um dos principais méritos.
Mas leiam comigo:

Minha amiga Monaliza Souza, já conhecida de vocês por conta de alguns textos bem bacanas que publico neste espaço, ficou tão embasbacada por ter presenciado uma apresentação de Paul McCartney em Paris na semana passada, que pedi a ela que dividisse essa experiência com vocês.

Abaixo, segue o texto que ela enviou diretamente da capital francesa (o e-mail dela é mona.souza@gmail.com ), ainda envolta com a sensação de magia proporcionada por ver e ouvir o velho Paul cara a cara.


"São sete e meia de uma noite fria e úmida em Paris. Eu e meu amigo Affonso estamos assustados com a fila gigantesca na frente do ginásio de Bercy, em Paris, onde vamos assistir a um show da atual turnê de Paul McCartney.


O ginásio, com capacidade para 17 mil pessoas, parece pequeno para acomodar aquele povo todo, mas de algum modo parece que todos entraram. Já lá dentro, mais relaxados por saber que o início da apresentação havia esperado por nós, pegamos uma cerveja cada um e aguardamos o grande momento.


A iluminação do palco é acionada e o público alvoroçado começa a aplaudir, mas ainda não é ele. O telão começa a projetar imagens fantásticas, misturando fotos, ilustrações e vídeos de Paul, Beatles, Wings... Era apenas uma introdução, prenúncio luxuoso do que estava por vir.
Pouco depois das nove da noite, sir Paul McCartney e sua banda maravilhosa entram no palco. Estamos tão próximos a eles que é difícil de acreditar que não estamos sonhando.
Eles abrem o show com "Magical Mystery Tour" (veja aqui ), com imagens coloridas e fractais no telão de fundo, que ao longo do show se prova um espetáculo à parte. E é claro que nós todos embarcamos na viagem. Carrões em alta velocidade surgem na tela e a banda emenda com "Drive My Car", numa versão superdançante, seguida de "Jet", que mantém o astral lá em cima e nossos pés impossibilitados de ficar no chão (veja aqui).


Paul então vem ao microfone para dar boa noite a Paris. Sua simpatia e o inequívoco bom humor nos fazem lembrar que estamos diante de Paul McCartney. Do beatle Paul McCartney! Isso pode parecer uma bobagem para outros mortais, mas não para mim e para as outras 16.999 pessoas em Bercy naquela noite. Para nós, aquele era um momento único na vida.


E mesmo sendo um beatle, mesmo já tendo tocado para milhares de pessoas, aquele parecia ser um momento especial para Paul também. Ele pede um minuto para olhar para o público, dizendo que aquilo é tão bacana que ele quer olhar bem para guardar na memória. Bercy vai ao delírio.
A música seguinte é "Only Mama Knows", a minha favorita de seu mais recente disco, Memory Almost Full, e me faz lembrar o amigo mais beatlemaníaco que tenho, Ricardo, que me pediu que pensasse nele quando tocassem esta canção. É nessa hora também que finalmente consigo prestar atenção na banda.


E como é boa essa banda! Os arranjos estão bem rock n'roll e isso vai ficando cada vez mais evidente à medida que o show avança com "Flaming Pie", "Got to Get You Into My Life" e "Let Me Roll It" (veja aqui)), sendo que esta última termina emendada em "Foxy Lady", a primeira homenagem da noite. Paul conta que, quando viu Jimi Hendrix tocando essa música, ficou alucinado com sua performance na guitarra e, que depois de tocá-la, Hendrix foi ao microfone e perguntou "Eric está por aí?", referindo-se a Eric Clapton, que estava lá e se escondeu.


O show desta noite estava recheado de homenagens. Ele dedicou "My Love" a todos os "amoureax", dizendo que escreveu esta canção para Linda, mas que ficava feliz de dividi-la com outros apaixonados (veja aqui). Antes de cantar "Blackbird", Paul fala das discussões sobre os direitos humanos com relação ao preconceito racial na década de 60, contando que escreveu a música naquela época e que ela fala sobre a esperança mesmo nos momentos mais sombrios.


Ele homenageou também de maneira sublime a França, Paris e os franceses. Incluiu no setlist a canção "Michelle", acompanhado de um acordeon - que não poderia soar mais francês - e imagens da Torre Eifel sob a lua cheia no telão (veja aqui). E anunciou de maneira engraçadíssima "Obladi Oblada" - "Nunca toquei essa música na França. E ela é em francês!". Todo mundo riu... (veja aqui).


Mas as grandes homenagens da noite foram para os Beatles. A primeira delas para a banda em si. "Got to Get You Into My Life" levou as pessoas ao delírio, mostrando no telão as animações dos Beatles para o jogo RockBand. A segunda homenagem foi para John Lennon. Paul emociona a todos ao dizer que, às vezes, os momentos passam e não dizemos às pessoas que as amamos e anuncia em francês: "Essa música é para meu amigo John. É como se fosse uma conversa que poderíamos ter tido", antes de tocar "Here Today" (veja aqui).


A homenagem mais bonita da noite, porém, foi a que ele fez a George Harrison. Antes de sequer anunciar qual seria a canção, Paul foi aplaudido por vários minutos ao dizer em francês que aquela música era dedicada a George. Com um ukelelê nas mãos, ele conta que George tocava o instrumento como ninguém e faz uma imitação engraçada do amigo tocando velhas canções americanas, dizendo ainda que aquele instrumento foi um presente de George para ele. E então, sozinho no palco, Paul começa a tocar "Something" de maneira leve e divertida (veja aqui). Essa música é tão incrível que mesmo sozinho no palco, fazendo graça com o ukelelê, Paul consegue fazer a música crescer e envolver todo o público, que chega ao auge da canção cantando a plenos pulmões em uníssono: "I don't know, I don't know". E sem que a gente perceba a troca de instrumentos, a banda volta ao palco, Paul pega um violão, a guitarra começa o clássico solo da música e o telão projeta imagens incríveis de George Harrison em vários momentos da vida: sozinho, com os Beatles, cabeludo, adolescente, junto com Paul em situações de muita cumplicidade, fumando, no estúdio... O arranjo da música é tão grandioso com a entrada de coros, guitarras e violões que deixa as pessoas emocionadas. E eu vou às lágrimas, claro.


As canções dos Beatles, obviamente são as que mais comovem as pessoas, mas algumas delas são verdadeiros hinos, como "A Day in the Life" (veja aqui), que Paul une com outro hino em nova homenagem a Lennon, "Give Peace a Chance". Os franceses cantam o refrão com as mão para cima, dedos em V, enquanto o telão projeta o símbolo de paz e amor. Pura catarse.


Mas não pude deixar de me perguntar: e a homenagem a Ringo? Será que o Macca só faz homenagens a Beatles falecidos? Pobre Ringo... Ninguém parece preocupado com isso, claro. Fica difícil mesmo pensar em qualquer outra coisa diante de um show tão bem montado, com um setlist irretocável e momentos clássicos e muito esperados, como aqueles em que Macca vai para o piano, situado no alto do palco, onde todos conseguem vê-lo tocar - até eu, com menos de 1,60 m de altura! É realmente viver um sonho ver um show de Paul McCartney com toda a qualidade e conforto. E meu ingresso de pista era o mais barato de todos os lugares disponíveis no ginásio. Inacreditável!


E toda vez que ele subia ao piano, antes mesmo de começar a tocar, o público ficava em polvorosa. Não era à toa. "The Long and Winding Road" foi a primeira ao piano (veja aqui), que Paul emendou com uma canção inédita e linda, "I Want to Come Home" (veja aqui), que faz parte da trilha sonora de um novo filme com Robert De Niro, que ficamos loucos para assistir, de tão bonitas que eram as imagens do filme mostradas no telão. Esse foi um momento bem romântico do show. Depois de dedicar "My Love" a Linda e aos apaixonados, Paul deixa o piano fazendo um coração com os braços sobre a cabeça. Todos riem. O amor, para Paul McCartney é motivo de alegria, não de tristeza.
Apesar do telão de altíssima fidelidade, o show parece ser um espetáculo simples. O palco não é particularmente complicado. A iluminação é elaborada, mas nada muito grandiosa. Paul está vestido de forma elegante, com suspensórios, mas é o Paul McCartney de sempre, sem firulas. E mesmo a banda sendo numerosa, nada chama muito a atenção.


Nos minutos finais do show, porém, a coisa fica espetaculosa, sim. "Live and Let Die", a penúltima canção antes do bis, é executada de maneira clássica, com seus arranjos elaborados e ricos. Uma explosão de fogos de artifícios no meio da música chega até a assustar o público, que não esperava um show pirotécnico dentro de um ginásio fechado (veja aqui). As pessoas mal recuperam o fôlego e ele começa "Hey Jude" (veja aqui). Catarse novamente. Sir McCartney sai do palco ovacionado. O público não arreda o pé. Todos sabem que vai ter mais.

Na verdade, ele volta mais duas vezes. No primeiro bis, surgem "Day Tripper" (veja aqui), "Lady Madonna" e "Get Back" (veja aqui); no segundo, "Yesterday" (veja aqui), "Helter Skelter" - em uma versão heavy metal que faz a gente chacoalhar a cabeça como se não houvesse amanhã (veja aqui) - e "Sgt. Peppers..." emendada em "The End", que finaliza o show (veja aqui). Um final emocionante. As pessoas aplaudem sem parar, enquanto aquele jovem senhor, depois de quase três horas de apresentação, aos seus 67 anos, corre de um lado ao outro do palco com as mãos levantadas, parando no microfone de vez em quando para fazer piadas como "Está na hora de eu ir para casa. Aliás, está na hora de vocês irem para casa, não acham?". Ele então não voltou mais e a gente teve que ir pra casa mesmo.

Quando as luzes acenderam, as pessoas pareciam borboletas. Todos pareciam flutuar. Se esse fosse um filme de Woody Allen, era o momento em que todos os personagens iriam para a casa voando. A gravidade e a idade são supérfluas e absolutamente ignoradas no universo de Paul McCartney. "Obladi, oblada, life goes on, la-la-la-la life goes on!"...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Clarice Lispector

Se existisse essa possibilidade, eu a colocaria em prática rapidamente, pois se tem uma coisa com a qual eu me identifico é "Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras".
Mas são as palavras de Clarice Lispector.



Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e,
se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta