Alguém lembra quando mandou sua última carta?
Aquelas, pelos meios convencionais: ir ao correio, comprar selo,
escrever numa folha de papel, com as próprias mãos.
Eu não lembro mais.
Nunca mais mandei cartões, cartas, no máximo, quando eu vou enviar algum pacote,
coloco um bilhetinho junto para esclarecer alguma dúvida.
Bom, ontem, eu resolvi escrever uma carta.
Só não sei se vou conseguir atender as minhas próprias expectativas.
Mas vou escrever uma carta para o Léo.
Entre nós dois, parece que qualquer comunicação nunca é suficiente.
Não há contato por telefone, sms, skype que pareça transmitir tudo
o que queremos contar um para o outro.
Sempre fica algum assunto pendente, uma pergunta por fazer, uma história pra contar.
Ele e o Vini, são hoje as pessoas com quem eu mais converso.
Mesmo com toda a distância entre nós.
Mesmo que conversar signifique teclar.
Já me peguei fazendo alguma coisa, ou ouvindo, e pensando ...
"bah, preciso contar isso para o Léo".
É a relação mais maluca que eu já tive.
Seria o amor da minha vida, se não tivéssemos vários 'senões' entre nós.
Eu, e todos os meus dramas, traumas e desconfianças, a distância,
e ele com toda a confusão que parece brotar como mato na vida dele.
Mas eu acho que ele sempre será o amor da minha vida.
Meio irmão, meio parceiro, meio paixão, meio vínculo que eu não consigo explicar.
Meio herói num pedestal por ter sido o primeiro homem com quem convivi relaxadamente.
Não faço a menor idéia de que tipo de relacionamento nós dois desenvolvemos,
mas - aparentemente - não se inclui em nenhuma categoria que eu conheça.
Acho que pra ele a nossa relação é mais clara,
eu sou uma irmã que a vida trouxe pra ele.
Eu não vejo isso com tanta nitidez, mas ...
ao mesmo tempo, não sei se algum dia seria permitido uma relação diferente.
Nem sei se é necessário termos uma relação com rótulo.
Talvez sejamos dessas pessoas abençoadas que vivem algo completamente diferente e são felizes assim.
Conversamos sobre tantas coisas: mulheres, homens, inseguranças,
trabalhos, sonhos, loucuras, amigos, decepções, vitórias, etc, etc, nunca termina.
É claro que eu converso com vários amigos, e sobre vários destes mesmos assuntos, mas ... sei lá, com ele essas conversas sempre foram leves e divertidas.
De certa forma, eu tenho a sensação que a melhor Lenira
existe quando está conversando com o Léo.
E não existe nenhum esforço nisso.
Não estou encenando.
Estou sendo eu mesma, me divertindo, brincando, sendo feliz.
E quando ele não está bem, eu sinto muita dor.
Principalmente, por que eu nunca posso fazer nada.
São lutas que só pertencem a ele, e eu só posso estar presente.
E isso é outra loucura: como se pode estar presente
na vida de alguém que mora há 1200 kilômetros de onde tu estás?
Mas eu sempre me esforço em estar presente.
E, frequentemente, sinto a presença dele.
Sei que ele consegue no meio da perturbação lembrar de mim.
Como eu posso ter tanta certeza?
De onde vem essa convicção?
Eu não oro mais.
Quando eu rompi meus laços com a IJCSUD, eu rompi com este exercício.
Pelo menos, da forma convencional, olhos fechados, mãos postas, ajoelhada,
implorando condescendência de um ser vingativo e irado.
Eu converso com o divino e expresso minhas emoções.
Ando pela casa, fazendo as minhas coisas e começo a conversar.
E na verdade, eu sou muito mais irada do que qualquer divindade poderia ser.
Converso com o divino sobre vários amigos.
E converso com o divino sobre o Léo, e minhas preocupações com ele.
Sempre peço que a existência tenha generosidade com meu amigo Léo.
Mas admito que, já pedi também, para que a existência rompesse nossa conexão.
Não é nada contra, não.
Mas também não sou a favor.
É algo tão desconhecido que já me passou pela cabeça que talvez não seja saudável.
Ele é o irmão que eu sempre quis ter.
O amigo em quem eu confio.
O homem que eu acho atraente.
O ser humano com quem eu me importo.
E ele consegue me fazer crer que eu sou uma pessoa melhor do que sempre acreditei.
Já chorei muito por causa das vezes em que ele me fez sentir isso.
Somente quem ouviu várias críticas sobre sua capacidade de amar,
faz noção do que é ler, ouvir, alguém que se considera tanto,
dizendo que tu és generosa, amorosa!
Quando essa pessoa diz, que - de alguma forma que eu não consigo ver -
eu contribuí pra ele estar melhor hoje.
Mesmo escrever sobre isso, me dá lágrimas nos olhos.
Mas eu já melhorei.
Não fico tão sombria e fechada, logo depois de receber este tipo de elogio.
Eu já consigo crer.
E se não fosse o Léo, talvez eu nunca começasse a exercitar esta crença em mim.
O absurdo da questão, é que eu sei que pra ele a reação deve ser semelhante.
Ele também já levou tanta rasteira, tanta dor, tanta decepção.
Não deve ser simples quando eu digo que o amo.
E estou sendo verdadeira.
Não estou encenando.
Não consigo dizer isso com frequencia.
Mesmo após vários "eu te amo" namastêmicos,
eu ainda sou cheia de cuidados para usar uma frase tão intensa.
Será que é possível que alguém compreenda o que eu sinto?
A minha amizade com o Léo, abriu espaço
para que a minha relação com o Vinícius
seja muito semelhante.
Ainda não tão tresloucada, mas em vias de.
Claro que ele ainda é top de linha (risos)
Eu ainda vou escrever a carta pra ele.
Não sei se vou falar destas coisas, mas é uma das intenções.
Mas quero contar pra ele como eu me sinto, as coisas que eu vejo aqui,
das coisas que eu quero construir e ainda não consegui, etc., etc, etc.
Hoje mesmo vou na papelaria comprar um bloco de papel de seda.
O papel que eu usava quando escrevia para o Fernando, há décadas atrás
(e isso é exatamente a verdade, sem exageros escorpianos).
Em 2010, espero que continuemos tão próximos quanto os últimos meses.
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